Sobre Jerônimo Mendonça

Jerônimo Mendonça Ribeiro (Ituiutaba - MG, 1 de novembro de 1939 – 26 de novembro de 1989) foi um grande trabalhador, palestrante e escritor espírita, que juntamente com Chico Xavier, seu amigo, trabalhou pelas causas sociais e pela divulgação da doutrina espírita. Jerônimo Mendonça, mesmo paralisado em uma cama ortopédica e cego trabalhava arduamente pelo ideal espírita e, por isso, ficou conhecido como O Gigante Deitado.

Vida e Obra

Jerônimo nasceu na cidade de Ituiutaba (MG), em uma família com grandes dificuldades materiais e teve uma infância normal.

Até os 15 anos de idade, Jerônimo frequentou a Igreja Presbiteriana onde fazia palestras. Porém, depois da morte da avó, ele sentiu a necessidade de conhecer mais sobre a vida além-túmulo.

Foi quando conheceu a doutrina espírita da qual se tornou adepto e passou a dirigir reuniões e eventos voltado aos jovens.

Aos 17 anos, quando revelou-se um bom jogador de futebol, começou a sentir os sintomas da doença que acabaria por imobilizá-lo, a artrite reumatoide. Aos 19 começou a usar muletas e, sem encontrar uma cura na medicina, parou de trabalhar. Então, ele foi gradativamente a uma cadeira de rodas e depois a uma cama ortopédica. Somando-se a isto tudo, ele teve perda gradativa da visão e problemas cardíacos. Apesar das grandes dificuldades, ele sempre mantinha o bom ânimo e dava conselhos a milhares de espíritas que vinham para pedir aconselhamentos. Ele viaja o Brasil inteiro graças a um leito anatômico projetado para ele.

Escreveu os livros: Crepúsculo de um Coração, Cadeira de Rodas, Nas pegadas de um Anjo, Escada de Luz, De mãos dadas com Jesus e Quatorze anos depois (em co-autoria).

Fundou o Lar Espírita Pouso do Amanhecer, obra destinada ao amparo de órfãos, em Ituiutaba. Após 50 anos de profícua existência, desencarnou o “O Gigante Deitado”, apelido dado por seus amigos e pela imprensa, e é o titulo do livro compilado por Jane Martins Vilela. Dele extraímos o seguinte e expressivo texto:

“Imagine o leitor, um homem totalmente paralítico, num leito há mais de 30 anos, sem mover o pescoço, cego há vinte anos, com terríveis dores no peito, necessitando do peso de quilos de areia para suportar essas dores! Esse homem resignado e sereno viajou pelo Brasil afora proferindo palestras, cantando, consolando e orientando centenas de pessoas”.

Dentre outras instituições, como creches, Jerônimo fundou os centros espíritas: Seara de Jesus, Manoel Augusto da Silva e Lar espírita Pouso do Amanhecer, conforme citado anteriormente.

Síntese biográfica
  • Data de Nascimento: 1º. de novembro de 1939
  • Nome de registro: Jerônimo Mendonça Ribeiro
  • Data da desencarnação: 26 de novembro de 1989
  • Estado Civil: Solteiro
  • Local de Nascimento: Ituiutaba - Minas Gerais
  • Local da desencarnação: Ituiutaba - Minas Gerais
Filiação
  • Pai: Altino Mendonça
  • Mãe: Antonia Olímpia de Jesus

Curiosidades

Estando, certa ocasião, justamente num cinema, uma moça tropeçou em sua cama e “explodiu”: “Mas não é possível! Aonde eu vou, está o aleijado! Vou a uma festa, o aleijado lá! Esse aleijado me persegue! Aonde eu vou, ele está!” Jerônimo pensou consigo: “E agora?! A moça está revoltada, nervosa mesmo. Tenho que lhe dar uma resposta, mas não quero irritá-la mais ainda. O que dizer?” E saiu com essa: “Mas também, minha filha, você não para em casa, hein!” Ela olhou-o atônita e começou a rir. Riram juntos. Ficaram amigos.

Permaneceu assim cerca de trinta e dois anos preso ao leito, paralítico e com a agravante perda da visão. Quase não dormia, aproveitou para estudar bastante o Espiritismo. Quando ficou cego amigos liam para ele. Nunca lhe faltaram bons amigos. Mas certa vez, um repórter lhe perguntou o que é a felicidade. Ele respondeu assim: “A felicidade, para mim, deitado há tanto tempo nesta cama sem poder me mexer, seria poder virar de lado”. Em outra ocasião, ele disse: “Casei-me com a Doutrina Espírita no civil e com a dor no religioso”. Fonte: http://jeronimomendonca.net

Dois meses antes de desencarnar, o saudoso confrade mineiro externou seu pensamento acerca de pena de morte, fé, dor, vivência evangélica, viciações e felicidade.

Entrevista com Jerônimo Mendonça

Dois meses antes de seu falecimento, em setembro de 1989, Jerônimo esteve em Votuporanga, interior do Estado de São Paulo, para palestras no Centro Espírita Emmanuel e no Centro Espírita Humberto de Campos, oportunidade em que nos concedeu a entrevista que se segue:

– Jerônimo, nota-se na sociedade brasileira, de um modo geral, um grande descrédito para com a administração pública, desesperança no quadro social e indiferença no trato com os valores nobres da vida. Por que isso vem ocorrendo?
Jerônimo Mendonça – Indubitavelmente que isso é fruto de uma transição, que o próprio planeta em si atravessa. E o Brasil não poderia ser diferente, dentro das conjunturas, das provações que todos nós ainda temos que passar. Mas temos que acreditar no amanhã melhor, confiar nos verdadeiros homens de bem, que sabem que tudo isso passa deixando conosco o resultado benéfico de uma experiência. Afinal, a vida é uma escola permanente de exemplos constantes, e nós espíritas temos que ver essa transição com os olhos do otimismo colocados no futuro. Hoje a dificuldade, os contratempos, a inversão de valores, a violência, o desamor, mas amanhã será o reinado de paz e de esperanças. Queiramos ou não, o Brasil será o Coração do Mundo e a Pátria do Evangelho.

– Nunca se falou tanto em pena de morte no Brasil como na atualidade. Movimentos de pressão se levantam pedindo a pena capital para os causadores de delitos mais graves. Como o senhor vê isso?
JM – Nós sabemos perfeitamente que a violência não se extingue com a violência. É como se nós tentássemos apagar um incêndio atirando-lhe combustível. A pena de morte para nós seria um retrocesso, principalmente nós brasileiros, que somos um povo pacífico por índole. E um dos mandamentos da Lei de Deus é muito claro e vem de forma imperativa: “Não matarás”. Então a violência não resolverá o problema da violência. Vamos orar para que esse processo de ideias obsessivas não alcance o emocional e a razão dos homens de bem, porque, apesar de todos os pesares, o amor é o grande caminho da felicidade humana.

– Como deve posicionar-se o cristão que verdadeiramente deseja contribuir para a implantação de uma nova ordem social na Terra?
JM – Cumprindo cada qual de nós, com dignidade, os nossos deveres. Sendo fiéis aos nossos postulados, com mais espírito de desprendimento e abnegação pela causa humana e social. Sabendo que o discípulo de hoje deve espelhar-se no retrato vivo do Mestre de sempre, que soube que o caminho mais perfeito dessa integração com Deus e com a felicidade perfeita é o dever cumprido. Cada qual de nós saibamos cumprir os nossos deveres dentro de nossos postos de trabalho, eis aí o resultado da vitória.

– Jerônimo, se já temos notícias dos imprescindíveis ensinamentos de Jesus, por que encontramos tantas dificuldades em vivenciá-los?
JM – É porque nós temos o evangelho mais na inteligência do que no sentimento. Ele ainda vive mais na esfera mental, no raciocínio, do que dentro do coração como renovação. Mas um momento chegará em que todos nós, olhando o panorama do pretérito, para aquelas verdadeiras almas que tudo fizeram na implantação do Cristianismo nascente, suportando fogueiras, feras e tantas calamidades que a história registra, possamos mirar nesse espelho do passado para termos a dignidade espiritual do presente e sabermos testemunhar Jesus em quaisquer lances da vida.

– A dor e o sofrimento são criações de Deus?
JM – Jamais. Deus, na sua infinita perfeição e bondade, jamais criaria o sofrimento para os seus filhos. O sofrimento e a dor são desvios do livre-arbítrio do homem através dos milênios. Toda atitude nossa contra as leis de amor do nosso Pai significa sofrimento em nós. Deus jamais puniria a humanidade com fome, miséria, dor física e dor moral. Nós é que criamos essa conjuntura cármica. Todo plantio errado dá colheita torta.

– Jerônimo, o que você poderia dizer aos pais que, desesperados, notam os filhos a trilhar pelos caminhos sombrios da vida, perdendo-se pelas veredas das fantasias e das viciações?
JM – Mais amor a esses filhos, mais espírito de entendimento das dificuldades psicológicas e dos processos obsessivos que às vezes comandam as cabeças jovens. O Espírito volta à reencarnação trazendo consigo as tendências não superadas do pretérito e às vezes não encontra um lar tão bem estruturado evangelicamente; então, ao invés de essas tendências serem combatidas, elas são alimentadas pelos exemplos ainda falhos dos seus próprios tutores espirituais. Então, paciência, fé, muita abnegação, muita capacidade de perdoar e entregá-los a Deus, sem deixar o barco à matroca.

– Jesus afirmou que quem tivesse fé do tamanho de um grão de uma mostarda poderia transportar montanhas. Perguntamos: O que é ter fé?
JM – Fé, segundo o Espírito Emmanuel, é visão da vida, a lógica da vida em si. O lavrador sabe que na semente está embrionariamente a árvore do amanhã, mas se ele não tiver fé na sua própria certeza de que plantando dá, aquela semente vai permanecer apenas como embrião. Então fé não nos vem por osmose, é uma conquista de cada um no tempo e no espaço, e dentro da Doutrina Espírita essa fé perde aquele caráter apenas místico para ser uma fé eminentemente racional. É conhecer, é saber de onde viemos, o que estamos fazendo, o que é a vida e para onde vamos. É ter noção de rumo e de caminho: esta é a fé.

– Jerônimo, como podemos encontrar a felicidade que tanto almejamos?
Jerônimo Mendonça – A felicidade é uma troca, o amor é fusão. Ninguém pode ser feliz no egoísmo, no exclusivismo, entregue à marginalidade de uma situação, qualquer que ela seja. Felicidade é participação, é a improvisação da felicidade dos outros, pois é dando que se recebe.